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(Paulo Luiz Mendes da Silva) Portal Terra de Mauá | www.arroiogrande.com


     Arroio-grandense, funcionário aposentado do Banco do Brasil, residindo atualmente em Uná/BA, relembra dos amigos e das aventuras que fez na vida. Apontando para fatos de sua adolescência, que produziram momentos mágicos e que o encheram de orgulho e alegria.

 

Paulo Luiz Mendes da Silva

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OPERAÇÃO SÚMULA


     De ônibus, chegávamos cedinho, na rodoviária de Arroio Grande. Fedoca, Oscarzinho e eu, retornávamos de um fandango na vizinha cidade de Pedro Osório, onde representamos o  CTG Sentinela dos Pampas, do colégio das  Irmãs. CTG este formado com o intuito de nos aproximarmos das meninas do internato que participavam dos ensaios da invernada artística.

     De botas, bombachas e lenços no pescoço, ainda, meio burrachos, descemos do ônibus e para surpresa nossa, um rapaz, fez pilhéria de nossas pilchas. De início, não comentamos nada e seguimos nosso caminho. Mas, a cachaça falou mais alto.  Fedoca, franzino, já no outro lado da rua, parou e perguntou gritando se ele estava gozando conosco, o que foi confirmado,  e vendo que o Fedoca era magrinho, o rapaz atravessou a rua. Aí não deu outra, Fedoca virou valentão e ficou naquela, me larga que eu vou rebentar esse cara. E num descuido meu e de Oscarzinho ele partiu pra cima do rapaz e no revide nós entramos batendo. O cara caía e levantava e vinha pra cima e assim foi acontecendo, desde a rodoviária até em frente à Liga Operária. O rapaz apanhava, e vinha pra cima, nunca se entregava, até que, apareceu mais gente pedindo, para nosso alívio, para acabar aquela briga. A atitude do rapaz de não se entregar causou-nos muita preocupação, já que tinha apanhado muito.  Naquele dia, no círculo de nossas amizades, comentamos o acontecido.

                                                                        Foto: Eliana Lúcio

     Decorridos alguns dias, era domingo, dia de clássico de futebol, Internacional versus Arroio Grande, no estádio dos eucaliptos. Eu era caturrita, participei como juvenil, da preliminar.   Antes de começar o jogo principal, minha namorada, que assistira eu jogar, pediu-me para levá-la em casa, após o que, eu voltaria para ver o clássico.

     Na saída do estádio, fomos abordados por três rapazes e um deles se dirigindo pra mim, foi logo dizendo: vocês eram três, agora, te quero ver me enfrentares sozinho? Aí, eu reconheci, era o rapaz da rodoviária. Olhei para o lado, para frente e vi, para meu alívio, chegando para assistir o jogo, Paulo Franklin e o Cascudo.  Dirigindo-me aos três, um era milico de quartel, fardado, falei que estava levando minha garota em casa e assim que a deixasse conversaria com eles.   Puxei um cigarro do bolso e me dirigi à dupla de amigos que chegavam para o jogo, pedi o fogo e falei pra eles, um desses três caras que estão me seguindo, é o da briga da rodoviária, dito isto, eles que sabiam do acontecido, seguiram caminhando e percorrendo, certa distância, retornaram.  Assim, seguiu aquele cortejo, eu na frente com a garota, os três a alguns metros atrás e mais atrás ainda, o Paulo e o Cascudo.

     Parei na porta da casa da garota, ao se aproximarem eu disse aos três, que  esperassem logo ali na esquina, e eles passaram. Passaram também os meus amigos.  Para despistarem, meus amigos passaram pelos três que me esperavam. Quando me aproximei do rapaz da rodoviária, o milico, empunhando uma faca partiu em minha direção, só dando tempo para eu levantar a perna e com o pé golpeá-lo na altura do peito.  Surpreendido, deixou cair a faca e o casquete da sua farda do exército. Chegaram meus amigos, empurrando, desferindo pontapés e acabando a briga.

     Fui logo, pegando a faca e o casquete, que estavam ao chão, e me afastando, disse que ia entregar tudo ao Tenente da Junta Militar.

     Chegando a casa do Tenente, que morava próximo a Adolfina, chegava também o milico, com dois policiais. Abordado, relatei o que aconteceu; que eu estava sozinho e ele, o milico, e mais dois tinham me atacado e que aqueles que no momento estavam comigo, passavam no local e só entraram para apartar e terminar com a briga, o que foi por ele confirmado. Até aí, tudo bem.  O casquete e a faca eu entreguei ao Tenente da Junta Militar, mas teria que, com as testemunhas, comparecer a Delegacia para relatar o acontecido.

     A pé, para lá nos dirigimos. Uma multidão lotava a frente da Delegacia. Olhamos um para o outro, surpresos, e logo pensamos que o acontecido teria tomado proporções jamais imaginadas. Os policiais abriram passagem na multidão, entramos na Delegacia, nervosos e receosos pelo que poderia conosco acontecer.  Naquele momento, sentimos que a coisa ia ficar preta para o nosso lado. O Clima na Delegacia estava tenso. Fomos encaminhados a uma sala e ali deveríamos aguardar o Delegado. Na rua, o murmurinho da multidão. Ali, dentro daquela sala, ficávamos imaginando coisas.  Eu suava frio. Aqueles minutos que nos separavam da chegada do Delegado pareciam uma eternidade.

     Com o acontecido, estávamos esquecidos do clássico de futebol, e ao procurarmos saber do resultado, fomos informados de que não havia terminado, teria acontecido uma confusão, com envolvimento de jogadores, árbitro e torcedores, tumulto generalizado, e que o  Negro Ari, massagista do Esporte Clube Arroio Grande, com o resultado adverso da sua equipe, notando descuido do representante da Federação Gaúcha de Futebol, pegara a súmula do jogo e a engolira. Acreditem! Engoliu a súmula do jogo. E ele estava preso, ali na Delegacia, e aquela multidão eram os torcedores que estavam no estádio, aguardando o desenrolar e dando apoio aquele massagista, torcedor fanático e ex-jogador do Saci.

     O Delegado Madruga, encontrava-se ausente, porque teria ido escoltar o árbitro e seus auxiliares até a cidade de Pelotas.

     Aí, caiu a ficha! Éramos somente protagonistas de algo, naquele momento, sem importância, comparado com a inusitada atitude do veterano Negro Ari.  O Delegado chegou, conversamos, deixamos tudo pelo dito não dito e fomos para casa, divertidos com tudo que havíamos passado.

     ... Mas, a história da súmula, virou folclore!

 

Outros Textos


2. A BOTA E A BOLA    
1. CHUTEIRAS COLORIDAS
 

Índice de Textos  

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A BOTA E A BOLA



          A bola de couro, sempre foi a principal personagem, insubstituível, na prática do futebol. Objeto de desejo de todo o jogador.

          Na metade do século passado é que surgiu a bola, nos moldes atuais, a anterior possuía costura externa para amarrar um bico que era usado para encher, o que feria os atletas. A bola de futebol tradicional era marrom e a branca para os jogos noturnos.

          Eram naquela época, feitas de couro de vaca, artesanalmente, e quando molhadas chegavam a atingir o dobro de seu peso. Após 1970, o couro começou a ser substituído por material sintético, mais leve, espessura uniforme, impermeável, o que mantinha seu peso aproximado ao original, e confeccionadas com a mais alta tecnologia. Hoje, movimenta um dos maiores negócios do planeta, testadas em túnel de vento, em aparelhos para medir a resistência e durabilidade, e com ações de marketing, surgiram, marcas mundialmente conhecidas, Adidas, Nike, Penalty, Umbro, entre outras.

                                                            Foto: Olmiro Marcondes
(Sede do Esporte Clube Arroio Grande) Portal Terra de Mauá | www.arroiogrande.com
Sede do Esporte Clube Arroio Grande

          Mas, na década de 60, na minha terra natal, na simpática Arroio Grande, o meu amigo Fisca, ousava mais uma vez. Sem uma bola para treinar um grupo de amigos, não pensou duas vezes.

          Utilizando-se de canos de um velho par de botas, partiu para realizar a façanha de confeccionar uma bola de couro, utilizando como molde, uma já inutilizada pelo uso excessivo. Contou os gomos, cortou os 18 pedaços retangulares e costurou-os com todo o cuidado para esconder a costura. Usando o inflável da bola velha concluiu o trabalho.

          Orgulhoso, encheu aquela bola, fruto de sua ousadia e desceu para o campo do E.C. Arroio Grande, onde acontecia os treinamentos, realizados durante a semana, diariamente, do meio dia e meio até as 14,00 horas, isto é, logo após o almoço.

          Já nos primeiros toques, veio o desencanto, a bola espichava e deformada fazia um bico, e quando chutada, ficava oval, vezes subia, vezes mudava de direção, ora para a esquerda, ora para a direita, enganando a todos, dificultando o domínio e a posse da bola pelos seus jogadores e de seu goleiro Heitor, famoso pelos floreios que fazia para repor bola ao jogo, tentando enganar os adversários. E os treinos com aquela bola se repetiram por vários dias, já que na época não era fácil comprar uma nova.

          Faziam parte desse time, seus sobrinhos Heitor e Ronaldinho, o das botinas coloridas, o Aniceto e o Alcindo, filhos do seu Dacilio Rodrigues, o Cilinho e o Nemezio da boca da ponte, o Bisnaga e o Antonio da Coxilha do Fogo, entre outros. O Fisca era o treinador, organizador e disciplinador desse grupo de amigos.

          O Alcindo chamava atenção, corria muito, de calça, com uma mão na cintura segurando um molho de chaves, e com a outra no peito para não cair o cigarro do bolso da camisa, assim começava e assim terminava o treino, após, dirigia-se ao escritório de contabilidade onde trabalhava.

          O Ronaldinho começou ali, sob a batuta do Tio Fisca, seus primeiros passos para ingressar no futebol profissional.

          Certa vez, num domingo, o time foi jogar na Chácara do Mario Bonneau, o campo era onde é hoje a CEEE, acima do clube da piscina. Iniciado o jogo, campo do time adversário. Já nos primeiros momentos começaram as dificuldades, e logo veio, a contestação, não era permitido fazer gol no time da casa, pois o baixinho da chácara, goleiro e dono do time, ameaçava de faca na cintura, cortar o primeiro que se atrevesse a chutar e fazer o gol. Foi duro, mas ninguém teve a coragem de colocar a bola na rede. Lá, nunca mais, voltaram a jogar.

          Final do ano de 2005. Recebi, com grande alegria, correspondência do amigo Elso (agora com a grafia correta), personagem do meu texto “Chuteiras Coloridas”. Escreveu ele, do próprio punho: "... É com muito prazer e agradecimento que chego até a ti"- "... As pessoas me dizem: ficaste famoso saindo na internet e eu respondo – isso é obra de um arroio-grandense que se lembra dos amigos e das aventuras que a gente faz na vida".

          Fiquei feliz, pois não imaginaria jamais, que ao escrever simples relato, lembrando fatos de minha adolescência, produziria momentos mágicos e que encheríamos de orgulho e alegria, hoje, o nosso septuagenário amigo Fisca.

Índice de Textos  

5



CHUTEIRAS COLORIDAS

     Na década de 90, a televisão começou a mostrar os craques dos grandes times do Brasil e do mundo, utilizando chuteiras com cores discretas, cinza, azul, branco e ultimamente cores vivas, cores do arco íris, prateadas e douradas, obras de arte industrializadas, confeccionadas dentro da mais alta tecnologia. Atualmente, nos grandes estádios de futebol do mundo, nos peladões da Etiópia, passando pelos estádios dos desertos africanos, todo grande craque ostenta aquela chuteira personalizada. Nas peladas ou babas (como se diz aqui na Bahia) notamos, a alegria dos craques de fim de semana, calçando e procurando com o olhar se enxergar no brilho cintilante das belas, esquisitas, ridículas, verdadeiras sapatilhas de birros, mas elas fazem a alegria daqueles que tem no futebol seu esporte preferido. Isso é o que vemos hoje e com certeza tornou-se bastante comum e natural.

                                                               Olmiro Marcondes
(Praça Zeca Maciel) Portal Terra de Mauá | www.arroiogrande.com
Praça Zeca Maciel

     Mas, na década de 60, na minha terra natal, na simpática cidade de Arroio Grande, no sul do Rio Grande, mais precisamente, na rua que descia para o estádio de E.C. Arroio Grande, à apenas 1 quarteirão do portão principal, existia uma sapataria e nela trabalhava um verdadeiro artesão, um discípulo do Professor Pardal. (Certo dia, enquanto jogávamos bola na frente da nossa casa, surge na esquina aquela figura clara, alta e esguia, com uma bicicleta, ostentando um estranho arco de ferro preso ao bagageiro traseiro e um pano enrolado e amarrado, de maneira que ao desenrolar se transformasse em uma vela , como as utilizadas em barcos. Tendo que frear para não nos atropelar, e com curiosidade própria de pré-adolescente aproximamos-nos com o riso estampado nos lábios marotos, perguntando o porque daquele aparato todo, e ele, cheio de si, com propriedade, respondeu, com seu cacoete , de dedo indicador em riste, movimentando-o de baixo para cima, “iiiiistouuu indo para a chácara,... iiiiiiih na hora que eu estiver a favor do vento eu desenrolo o pano, ...iiiiih aí, eu não preciso pedalar tanto, pois o vento vai me levar”).

     Esse artesão, o Élcio, conhecido carinhosamente pelos amigos da Liga Operária, de FISCA, pode ter sido o primeiro, a fazer a chuteira de cor, ao confeccionar sob medida, para seu sobrinho Ronaldinho,( por ironia, hoje xará dos maiores do mundo), jogador profissional do E.C. Pelotas, a chuteira de cor marrom, que nos estádios do Rio Grande do Sul, chamava atenção dos radialistas, que nas transmissões ressaltavam aquele jogador da camisa 11,que driblava rápido e chutava muito forte e se apresentava de chuteiras marrom, algo inédito para os anos 60.

     Na época, aquela chuteira, por sinal,confeccionada com muita perfeição, sob medida, em couro marrom, seria a ousadia e coragem do artesão, que fugindo a tradição da ” butina preta”, transformou seu sobrinho, não só pelo belo futebol arte que o mesmo praticava, talvez, num personagem histórico do primeiro jogador profissional a usar uma chuteira de cor.

     Imagino, hoje, o orgulho, a felicidade que o amigo Fisca, digo amigo, porque por várias vezes permitia que ficássemos debruçados na sua banca profissional admirando o trabalho artesanal que realizava na confecção de calçados, cintos, bolsas, e na recuperação de peças, colocando a famosa meia sola e as biqueiras de latão para não gastarmos as solas nas pontas dos sapatos e sairmos pelos passeios pisando firme, sentia ao ter seu sobrinho, nosso conterrâneo, de sair do E.C. Arroio Grande e ir para o futebol profissional e ainda, usando a chuteira marrom por ele confeccionada, chamando atenção de sua obra artesanal através das reportagens realizadas pelos radialistas esportivos do Rio Grande e do Brasil.

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