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OPERAÇÃO SÚMULA
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De ônibus, chegávamos cedinho, na rodoviária de Arroio
Grande. Fedoca, Oscarzinho e eu, retornávamos de um fandango na
vizinha cidade de Pedro Osório, onde representamos o CTG
Sentinela dos Pampas, do colégio das Irmãs. CTG este formado
com o intuito de nos aproximarmos das meninas do internato que
participavam dos ensaios da invernada artística.
De botas, bombachas e lenços no pescoço, ainda, meio
burrachos, descemos do ônibus e para surpresa nossa, um rapaz,
fez pilhéria de nossas pilchas. De início, não comentamos nada e
seguimos nosso caminho. Mas, a cachaça falou mais alto. Fedoca,
franzino, já no outro lado da rua, parou e perguntou gritando se
ele estava gozando conosco, o que foi confirmado, e vendo que o
Fedoca era magrinho, o rapaz atravessou a rua. Aí não deu outra,
Fedoca virou valentão e ficou naquela, me larga que eu vou
rebentar esse cara. E num descuido meu e de Oscarzinho ele
partiu pra cima do rapaz e no revide nós entramos batendo. O
cara caía e levantava e vinha pra cima e assim foi acontecendo,
desde a rodoviária até em frente à Liga Operária. O rapaz
apanhava, e vinha pra cima, nunca se entregava, até que,
apareceu mais gente pedindo, para nosso alívio, para acabar
aquela briga. A atitude do rapaz de não se entregar causou-nos
muita preocupação, já que tinha apanhado muito. Naquele dia, no
círculo de nossas amizades, comentamos o acontecido. |
Foto: Eliana Lúcio
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Decorridos alguns dias, era domingo, dia de clássico de futebol,
Internacional versus Arroio Grande, no estádio dos eucaliptos.
Eu era caturrita, participei como juvenil, da preliminar.
Antes de começar o jogo principal, minha namorada, que assistira
eu jogar, pediu-me para levá-la em casa, após o que, eu voltaria
para ver o clássico.
Na saída do estádio, fomos abordados por três rapazes e
um deles se dirigindo pra mim, foi logo dizendo: vocês eram
três, agora, te quero ver me enfrentares sozinho? Aí, eu
reconheci, era o rapaz da rodoviária. Olhei para o lado, para
frente e vi, para meu alívio, chegando para assistir o jogo,
Paulo Franklin e o Cascudo. Dirigindo-me aos três, um era
milico de quartel, fardado, falei que estava levando minha
garota em casa e assim que a deixasse conversaria com eles.
Puxei um cigarro do bolso e me dirigi à dupla de amigos que
chegavam para o jogo, pedi o fogo e falei pra eles, um desses
três caras que estão me seguindo, é o da briga da rodoviária,
dito isto, eles que sabiam do acontecido, seguiram caminhando e
percorrendo, certa distância, retornaram. Assim, seguiu aquele
cortejo, eu na frente com a garota, os três a alguns metros
atrás e mais atrás ainda, o Paulo e o Cascudo.
Parei na porta da casa da garota, ao se aproximarem eu
disse aos três, que esperassem logo ali na esquina, e eles
passaram. Passaram também os meus amigos. Para despistarem,
meus amigos passaram pelos três que me esperavam. Quando me
aproximei do rapaz da rodoviária, o milico, empunhando uma faca
partiu em minha direção, só dando tempo para eu levantar a perna
e com o pé golpeá-lo na altura do peito. Surpreendido, deixou
cair a faca e o casquete da sua farda do exército. Chegaram meus
amigos, empurrando, desferindo pontapés e acabando a briga.
Fui logo, pegando a faca e o casquete, que estavam ao
chão, e me afastando, disse que ia entregar tudo ao Tenente da
Junta Militar.
Chegando a casa do Tenente, que morava próximo a
Adolfina, chegava também o milico, com dois policiais. Abordado,
relatei o que aconteceu; que eu estava sozinho e ele, o milico,
e mais dois tinham me atacado e que aqueles que no momento
estavam comigo, passavam no local e só entraram para apartar e
terminar com a briga, o que foi por ele confirmado. Até aí, tudo
bem. O casquete e a faca eu entreguei ao Tenente da Junta
Militar, mas teria que, com as testemunhas, comparecer a
Delegacia para relatar o acontecido.
A pé, para lá nos dirigimos. Uma multidão lotava a
frente da Delegacia. Olhamos um para o outro, surpresos, e logo
pensamos que o acontecido teria tomado proporções jamais
imaginadas. Os policiais abriram passagem na multidão, entramos
na Delegacia, nervosos e receosos pelo que poderia conosco
acontecer. Naquele momento, sentimos que a coisa ia ficar preta
para o nosso lado. O Clima na Delegacia estava tenso. Fomos
encaminhados a uma sala e ali deveríamos aguardar o Delegado. Na
rua, o murmurinho da multidão. Ali, dentro daquela sala,
ficávamos imaginando coisas. Eu suava frio. Aqueles minutos que
nos separavam da chegada do Delegado pareciam uma eternidade.
Com o acontecido, estávamos esquecidos do clássico de
futebol, e ao procurarmos saber do resultado, fomos informados
de que não havia terminado, teria acontecido uma confusão, com
envolvimento de jogadores, árbitro e torcedores, tumulto
generalizado, e que o Negro Ari, massagista do Esporte Clube
Arroio Grande, com o resultado adverso da sua equipe, notando
descuido do representante da Federação Gaúcha de Futebol, pegara
a súmula do jogo e a engolira. Acreditem! Engoliu a súmula do
jogo. E ele estava preso, ali na Delegacia, e aquela multidão
eram os torcedores que estavam no estádio, aguardando o
desenrolar e dando apoio aquele massagista, torcedor fanático e
ex-jogador do Saci.
O Delegado Madruga, encontrava-se ausente, porque teria
ido escoltar o árbitro e seus auxiliares até a cidade de
Pelotas.
Aí, caiu a ficha! Éramos somente protagonistas de algo,
naquele momento, sem importância, comparado com a inusitada
atitude do veterano Negro Ari. O Delegado chegou, conversamos,
deixamos tudo pelo dito não dito e fomos para casa, divertidos
com tudo que havíamos passado.
... Mas, a história da súmula, virou folclore!
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A BOTA E A BOLA
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A bola de
couro, sempre foi a principal personagem, insubstituível, na
prática do futebol. Objeto de desejo de todo o jogador.
Na metade
do século passado é que surgiu a bola, nos moldes atuais, a
anterior possuía costura externa para amarrar um bico que era
usado para encher, o que feria os atletas. A bola de futebol
tradicional era marrom e a branca para os jogos noturnos.
Eram
naquela época, feitas de couro de vaca, artesanalmente, e quando
molhadas chegavam a atingir o dobro de seu peso. Após 1970, o
couro começou a ser substituído por material sintético, mais
leve, espessura uniforme, impermeável, o que mantinha seu peso
aproximado ao original, e confeccionadas com a mais alta
tecnologia. Hoje, movimenta um dos maiores negócios do planeta,
testadas em túnel de vento, em aparelhos para medir a
resistência e durabilidade, e com ações de marketing, surgiram,
marcas mundialmente conhecidas, Adidas, Nike, Penalty, Umbro,
entre outras.
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Foto: Olmiro Marcondes

Sede do Esporte
Clube Arroio Grande
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Mas, na década de 60, na minha terra natal, na simpática Arroio
Grande, o meu amigo Fisca, ousava mais uma vez. Sem uma bola
para treinar um grupo de amigos, não pensou duas vezes.
Utilizando-se de canos de um velho par de botas, partiu para
realizar a façanha de confeccionar uma bola de couro, utilizando
como molde, uma já inutilizada pelo uso excessivo. Contou os
gomos, cortou os 18 pedaços retangulares e costurou-os com todo
o cuidado para esconder a costura. Usando o inflável da bola
velha concluiu o trabalho.
Orgulhoso,
encheu aquela bola, fruto de sua ousadia e desceu para o campo
do E.C. Arroio Grande, onde acontecia os treinamentos,
realizados durante a semana, diariamente, do meio dia e meio até
as 14,00 horas, isto é, logo após o almoço.
Já nos
primeiros toques, veio o desencanto, a bola espichava e
deformada fazia um bico, e quando chutada, ficava oval, vezes
subia, vezes mudava de direção, ora para a esquerda, ora para a
direita, enganando a todos, dificultando o domínio e a posse da
bola pelos seus jogadores e de seu goleiro Heitor, famoso pelos
floreios que fazia para repor bola ao jogo, tentando enganar os
adversários. E os treinos com aquela bola se repetiram por
vários dias, já que na época não era fácil comprar uma nova.
Faziam
parte desse time, seus sobrinhos Heitor e Ronaldinho, o das
botinas coloridas, o Aniceto e o Alcindo, filhos do seu Dacilio
Rodrigues, o Cilinho e o Nemezio da boca da ponte, o Bisnaga e o
Antonio da Coxilha do Fogo, entre outros. O Fisca era o
treinador, organizador e disciplinador desse grupo de amigos.
O Alcindo
chamava atenção, corria muito, de calça, com uma mão na cintura
segurando um molho de chaves, e com a outra no peito para não
cair o cigarro do bolso da camisa, assim começava e assim
terminava o treino, após, dirigia-se ao escritório de
contabilidade onde trabalhava.
O
Ronaldinho começou ali, sob a batuta do Tio Fisca, seus
primeiros passos para ingressar no futebol profissional.
Certa vez,
num domingo, o time foi jogar na Chácara do Mario Bonneau, o
campo era onde é hoje a CEEE, acima do clube da piscina.
Iniciado o jogo, campo do time adversário. Já nos primeiros
momentos começaram as dificuldades, e logo veio, a contestação,
não era permitido fazer gol no time da casa, pois o baixinho da
chácara, goleiro e dono do time, ameaçava de faca na cintura,
cortar o primeiro que se atrevesse a chutar e fazer o gol. Foi
duro, mas ninguém teve a coragem de colocar a bola na rede. Lá,
nunca mais, voltaram a jogar.
Final do
ano de 2005. Recebi, com grande alegria, correspondência do
amigo Elso (agora com a grafia correta), personagem do meu texto
“Chuteiras Coloridas”. Escreveu ele, do próprio punho: "... É
com muito prazer e agradecimento que chego até a ti"- "... As
pessoas me dizem: ficaste famoso saindo na internet e eu
respondo – isso é obra de um arroio-grandense que se lembra dos
amigos e das aventuras que a gente faz na vida".
Fiquei
feliz, pois não imaginaria jamais, que ao escrever simples
relato, lembrando fatos de minha adolescência, produziria
momentos mágicos e que encheríamos de orgulho e alegria, hoje, o
nosso septuagenário amigo Fisca.
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CHUTEIRAS COLORIDAS
Na
década de 90, a televisão começou a mostrar os craques dos grandes times
do Brasil e do mundo, utilizando chuteiras com cores discretas, cinza,
azul, branco e ultimamente cores vivas, cores do arco íris, prateadas e
douradas, obras de arte industrializadas, confeccionadas dentro da mais
alta tecnologia. Atualmente, nos grandes estádios de futebol do mundo,
nos peladões da Etiópia, passando pelos estádios dos desertos africanos,
todo grande craque ostenta aquela chuteira personalizada. Nas peladas ou
babas (como se diz aqui na Bahia) notamos, a alegria dos craques de fim
de semana, calçando e procurando com o olhar se enxergar no brilho
cintilante das belas, esquisitas, ridículas, verdadeiras sapatilhas de
birros, mas elas fazem a alegria daqueles que tem no futebol seu esporte
preferido. Isso é o que vemos hoje e com certeza tornou-se bastante
comum e natural.
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Olmiro Marcondes

Praça Zeca Maciel |
Mas, na década de 60, na minha terra natal, na
simpática cidade de Arroio Grande, no sul do Rio
Grande, mais precisamente, na rua que descia
para o estádio de E.C. Arroio Grande, à apenas 1
quarteirão do portão principal, existia uma
sapataria e nela trabalhava um verdadeiro
artesão, um discípulo do Professor Pardal.
(Certo dia, enquanto jogávamos bola na frente da
nossa casa, surge na esquina aquela figura
clara, alta e esguia, com uma bicicleta,
ostentando um estranho arco de ferro preso ao
bagageiro traseiro e um pano enrolado e
amarrado, de maneira que ao desenrolar se
transformasse em uma vela , como as utilizadas
em barcos. Tendo que frear para não nos
atropelar, e com curiosidade própria de
pré-adolescente aproximamos-nos com o riso
estampado nos lábios marotos, perguntando o
porque daquele aparato todo, e ele, cheio de si,
com propriedade, respondeu, com seu cacoete , de
dedo indicador em riste, movimentando-o de baixo
para cima, “iiiiistouuu indo para a chácara,...
iiiiiiih na hora que eu estiver a favor do vento
eu desenrolo o pano, ...iiiiih aí, eu não
preciso pedalar tanto, pois o vento vai me
levar”).
Esse artesão, o Élcio, conhecido carinhosamente
pelos amigos da Liga Operária, de FISCA, pode
ter sido o primeiro, a fazer a chuteira de cor,
ao confeccionar sob medida, para seu sobrinho
Ronaldinho,( por ironia, hoje xará dos maiores
do mundo), jogador profissional do E.C. Pelotas,
a chuteira de cor marrom, que nos estádios do
Rio Grande do Sul, chamava atenção dos
radialistas, que nas transmissões ressaltavam
aquele jogador da camisa 11,que driblava rápido
e chutava muito forte e se apresentava de
chuteiras marrom, algo inédito para os anos 60.
Na época, aquela chuteira, por
sinal,confeccionada com muita perfeição, sob
medida, em couro marrom, seria a ousadia e
coragem do artesão, que fugindo a tradição da ”
butina preta”, transformou seu sobrinho, não só
pelo belo futebol arte que o mesmo praticava,
talvez, num personagem histórico do primeiro
jogador profissional a usar uma chuteira de cor.
Imagino, hoje, o orgulho, a felicidade que o
amigo Fisca, digo amigo, porque por várias vezes
permitia que ficássemos debruçados na sua banca
profissional admirando o trabalho artesanal que
realizava na confecção de calçados, cintos,
bolsas, e na recuperação de peças, colocando a
famosa meia sola e as biqueiras de latão para
não gastarmos as solas nas pontas dos sapatos e
sairmos pelos passeios pisando firme, sentia ao
ter seu sobrinho, nosso conterrâneo, de sair do
E.C. Arroio Grande e ir para o futebol
profissional e ainda, usando a chuteira marrom
por ele confeccionada, chamando atenção de sua
obra artesanal através das reportagens
realizadas pelos radialistas esportivos do Rio
Grande e do Brasil. |
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