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Portal
Terra de Mauá | Divulgando
nossa cultura. Valorizando nossa gente!
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Grande na internet. |
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Nossa Gente |

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Arroio-grandense, professora de Língua
Inglesa, residindo em Porto Alegre desde 1980, ela escreve sobre os
suas melhores lembranças da cidade simpatia, homenageando e
enaltecendo os fatos e pessoas que a tornaram melhor, graças aos
exemplos que lhe deram.
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Ina Elaine Ferreira Feijó Lovato |

E-mail |
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Crônicas
da Minha Cidade
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O CINEMA DA MINHA
INFÂNCIA
Era madrugada, alguns pássaros começavam a cantar anunciando o clarear do dia. Mais uma noite de insônia!
Ocupada com os prazeres sadios que a Internet pode trazer, dedicava-me a pesquisar letras de músicas e melodias quando, quase sem poder acreditar, numa lista interminável de títulos, encontrei
Maria Bonita, de Agustín Lara. Devia estar sonhando!
Ouvi, atentamente:
Acuerdate de Acapulco de aquelas noches
Maria Bonita, Maria del alma (...)
Ansiosa, saí em busca de outro tesouro, El Pañuelito, e achei:
El pañuelito blanco que te ofrecí, bordado con mi pelo,
fue para ti, lo has despreciado y en llanto empapado lo
tengo ante mí. (...)
O barulho da impressora imprimindo as letras das duas músicas fez com que, em poucos minutos, eu mergulhasse, profundamente, no passado.
Vi-me, nos meus oito anos, voltando da missa e passando, bem devagarinho, para confirmar a programação. Sorvendo o sabor de vencer a distância de meia quadra da igreja até aquele outro templo: o cinema.
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Foto: Revista Tempos

Cine Marabá
(antigo prédio ao lada da Prefeitura), foi derrubado para em seu
lugar nada construir-se. |
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Uma olhada rápida no cartaz à esquerda, outra à direita e uma espiadela pela porta de vidro, no centro, para ver alguma coisa a mais. Eu nem sabia bem o que queria ver, mas era muito bom tentar descobrir algo novo.
Voltava para casa, almoçava pouco para não perder tempo, juntava meus tostões e ia me encontrar com minhas amigas. O sinal era a música. Quando no sistema externo de som do cinema, tocava
Maria Bonita e El Pañuelito, não, necessariamente, nesta ordem, tínhamos que nos apressar: estava quase na hora de iniciar a sessão.
O que mais me emociona é a lembrança do cheiro que sentíamos ao transpor a cortina vermelha que separava a sala de espera da sala principal. Não era cheiro de mofo, nem de pó, nem de tinta, nem de pipoca. Era um cheiro de ... cinema. Não tem como explicar. Só quem viveu nessa época pode me entender.
Eu tinha um maravilhoso grupo de amigas. Quem chegasse primeiro, tinha que marcar o lugar para as outras. Não era muito comum nessa época nos misturarmos com os guris. Procurávamos escolher lugares que ficassem abrigados do puleiro. Esclarecendo: chamávamos de
puleiro o que, hoje, chamaríamos de mezzanino. Costumavam , alguns meninos, ir sentar-se no andar de cima
(o puleiro) para jogar porcarias nas nossas cabeças (papel de bala, balas sem papel, já lambidas e os temíveis chicletes, já devidamente mastigados e descorados, mas ainda grudentos).
Quando o filme era bom e o cinema enchia, era uma “briga de foice” conseguirmos manter os lugares reservados.
E o baleiro? Era uma festa! Segurava uma bandeja pendurada ao pescoço por um cinto de couro. Deslocava-se aquele rapazinho, oferecendo balas, balinhas e balonas. Quando alguma de nós não tinha dinheiro sobrando para comprar guloseimas, sempre alguém do grupo comprava e compartilhava suas balas. É claro que a divisão era tendenciosa: mais balas ( muito mais) para quem havia comprado. Mas, achávamos que era justo. Uma bala por sessão estava ótimo!
Chegava o grande momento: o trailer dos próximos filmes e as notícias desportivas
(o Canal 100) davam início. Às vezes, um desenho animado curto, outras vezes, um episódio de seriados. Lembro-me de
O Zorro e Roy Rogers. Inúmeras vezes, o episódio acabava no meio de um acontecimento com a chamada:
NÃO PERCA O PRÓXIMO EPISÓDIO.
Raríssimas foram as vezes em que houve continuidade do episódio anterior na matinée do domingo seguinte.
Eram muito comuns, nessa época, os filmes de faroeste, que chamávamos de
bang-bang. E muitas foram as vezes em que acompanhamos a perseguição do bandido pelo mocinho batendo com os nossos pés no chão, aplaudindo e gritando. Era um Deus nos acuda!
Ao escolhermos o lugar para sentar, tínhamos uma segunda preocupação: não permitir que nenhum
jerivá sentasse na nossa frente. (Explico: jerivá era alguém bem mais alto do que nós). Isso seria uma tragédia. Não veríamos a metade do filme ou ficaríamos com torcicolo. Sendo as cadeiras quase no mesmo nível, precisávamos sentar atrás de alguém da nossa altura ou menor do que nós. Tenho certeza de que quem construiu o primeiro cinema com cadeiras em declive acentuado foi criança na mesma época em que nós fomos.
Nessa época, quase todas as meninas da nossa turma gostavam de algum menino. Só que, até hoje, acredito, eles não sabem que fizeram parte desse sonho.
O Cine Marabá (era esse o seu nome) era organizado, basicamente, como hoje são os cinemas: havia três corredores, dois nas laterais e outro, bem mais largo, no centro.
Tínhamos uma certa preferência pelas cadeiras do lado esquerdo. Não lembro o porquê. Mania de criança.
Hoje, após tantos anos, quando passo na frente do local onde foi o Cine Marabá, sonho com a possibilidade de alguns empresários fazerem daquelas árvores e do tapume que ocupam o terreno, um
shopping, cheio de pequenas lojas, tendo ao fundo, à esquerda, luminoso, moderno, renascido, cheio de histórias para contar, o Cine Marabá dos meus sonhos. |
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À PROFESSORA DIVA, COM CARINHO
Meus bons professores exerceram influência em
minha vida, mas ninguém foi tão decisivo quanto a professora
Diva.
Loira, estatura média, olhos claros e
luminosos, é assim que me lembro dela. Com os cabelos sempre bem
alinhados ela, hoje, me faz pensar na sua semelhança física com
a ex-primeira ministra inglesa Margaret Thatcher.E foi dessa
forma que ela chegou a Arroio Grande acompanhando o marido, na
época, funcionário do Banrisul.
Ela era muito bem humorada, mas firme quando a
turma tentava ultrapassar os limites. Fui aluna dela no antigo
ginásio, na escola normal e, como ouvinte, no científico.
Explico: assim como a Vera Agendes (minha colega de escola
normal na época) tinha autorização para assistir as aulas de
Matemática no curso científico, eu tinha autorização para
assistir as aulas de Língua Inglesa. O curioso é que a Vera
tornou-se professora de Matemática e eu de Língua Inglesa. |

Antigo Ginásio, atual Curso de Aplicação do
Instituto Estadual Aimone Soares Carriconde. |
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Antes de a professora Diva chegar a Arroio Grande eu gostava um
pouco de inglês, mas, com ela, passei a adorar a disciplina.
Admirava o seu jeito organizado de ser, gostava das atividades
que ela realizava em aula, das novidades e dos jogos que ela nos
mostrava. Além disso, ela cantava, e cantava bem.
Como eu não tinha intenção de
decepcioná-la, eu fazia e refazia todos os exercícios propostos
por ela.
No científico, a turma com que eu estudava era
muito grande o que me obrigava a, todas as semanas, ao chegar na
sala de aula, deslocar uma classe (pesada) e uma cadeira de
outra sala para o local em que teríamos inglês. Ao final do
período, eu devolvia ambas à sala de origem. Certa vez, teríamos
uma prova de inglês e, quando cheguei, qual não foi a minha
surpresa: havia uma classe e uma cadeira à minha espera,
estrategicamente colocadas no meio do grupo que não se garantia
muito em inglês.
Sentei-me, para não ser indelicada, mas eu
sabia que não iria "esquentar o banco" e, realmente, como boa
estrategista a professora Diva deixou-me ali apenas alguns
minutos, deslocando-me e a outros colegas para alguns
"quilômetros de distância".
Minha Mãe lembrou-se de que, certa vez, eu
adoeci e ela veio visitar-me, o que não era muito comum na minha
juventude. Esse cuidado afetivo era outro aspecto marcante de
sua personalidade.
Ela foi a única professora daquela época a me
oferecer carona na sua caminhonete, uma "Rural", como dizíamos.
Isso acontecia com mais freqüência na saída do científico,
quando coincidiam nossos horários. Numa dessas vezes, veio
conosco seu garotinho de uns três ou quatro anos que já sabia
contar em inglês: "one, two, three...". Certo tempo depois ela
deu à luz uma menina. Com a menina quase não convivemos, porque
o marido da professora Diva foi transferido e ela e os filhos o
acompanharam.
Ela era uma pessoa de sorte: saía de Arroio
Grande, a "Cidade Simpatia" para viver em Sapiranga, a "Cidade
das Rosas".
Muitos anos depois, eu já estudante de Língua
Inglesa na UFRGS, num programa chamado PREMEN (Programa de
Expansão e Melhoria do Ensino), procurava alguma oferta no setor
de línguas estrangeiras na Livraria Sulina (situada na Av.
Borges de Medeiros, em Porto Alegre), quando ouvi aquela voz
inconfundível. Fiquei estática, abaixada junto à prateleira
inferior de uma estante, absorvendo com euforia a possibilidade
do reencontro. Invadiu-me um receio: e se ela fosse embora?
Levantei-me, rapidamente, e virando-me fiquei frente a frente
com ela: a mesma e querida professora Diva, apenas com uma ou
duas rugas a mais. Então, ela me disse: "Eu estava curiosa para
saber quem era essa moça mergulhada nos livros de inglês, por
isso cheguei mais perto". Abraçamo-nos e eu não acreditava que
ela havia me reconhecido. Contei-lhe que eu estava me preparando
para ser professora de inglês e, confesso sem falsa modéstia,
que senti uma pontinha de orgulho naqueles olhos luminosos.
Depois desse encontro, ela me escreveu e eu lhe respondi, mas
nunca mais soube notícias dela. Nem sei se ela recebeu o cartão
que lhe enviei.
Gostaria de poder contar à professora Diva que,
em abril de 1994, um projeto meu foi escolhido pela "Fullbright
Foundation", fundação essa que, com o apoio do governo
norte-americano, destinava bolsas de estudo a professores. Fui
escolhida para representar nossa Arroio Grande, nosso estado e
nosso país no "Multinational Institute of Summer Education".
Fui, então, estudar na "New York University" em Nova Iorque
durante quarenta e cinco dias (de junho a agosto de 1994). Esse
foi o grande prêmio da minha vida profissional e, muito disso,
eu devo à professora Diva Nair Jost Paul. Onde ela estiver, que
Deus a proteja!
À querida professora Diva e a todos os mestres
que, como ela, me tornaram melhor, confesso que tentei ser uma
boa profissional e vou continuar tentando, graças ao exemplo que
me deram. |
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O PADRE THOMÉ QUE EU CONHECI
Lembro-me daquela figura enorme (eu era bem pequena ),inclinada , sempre pronta a afagar a cabeça de
uma criança. Acompanhado de um chapéu preto, grande, que o protegia do
sol e, muitas vezes, carregando seu guarda-chuva. Essa é a imagem que tenho do
Pe. Thomé José
Lunelli.
O que eu sentia era uma mistura de medo e respeito. Afinal,
foi ele a primeira pessoa a me mostrar uma figura de Deus. Para mim, ele
era tão íntimo de Deus que tinha permissão para divulgar Sua imagem. Confesso
que sempre me intrigou o fato de Deus aparecer como um senhor idoso de barba e cabelos brancos. Consolava-me o fato de
Ele ser, fisicamente, muito forte.
Cresci ouvindo dizer o quanto o Pe. Thomé era exigente: nada de senhoras ou senhoritas de ombros e braços expostos dentro da igreja. Mas, ao mesmo tempo, nunca me aproximei dele
sem receber um sorriso sereno, depois de ter-lhe beijado a mão. E, além do sorriso,
ele sempre me presenteava com um santinho, quando ele me alcançava dois santinhos,
era a glória, eu adorava!
Lavoisier (1743 – 1794), cientista francês, disse
que no mundo nada se perde, tudo se transforma, mas foi o Pe. Thomé quem me mostrou, na prática, como isso acontecia. Lembro-me de
uma vez em que fomos a Pelotas visitá-lo (minha Mãe e eu), sobre uma mesa pequena havia um envelope descolado, aberto, e
uma carta em andamento. Era isso mesmo, ele descolava os envelopes que recebia, virava-os do avesso, colava-os, subscritava-os e os enviava a
uma outra pessoa. A partir daí, passei a espiar dentro dos envelopes
que ele nos enviava para ver quem era o antigo rementente da carta. |

Busto em Homenagem ao Pe. Thomé Lunelli,
edificado ao lado da Igreja Matriz. |
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E, por falar em carta, nunca soube que o Pe. Thomé tivesse deixado de responder a
uma carta. Quando alguma pessoa amiga ia a Pelotas visitá-lo, sempre
que podia, minha Mãe enviava um dinheirinho para suas obras de caridade. Sabendo que, muitas vezes, isso
era um sacrifício para ela, ele sempre respondia agradecendo e dizendo onde seria aplicado o dinheiro.
O Pe. Thomé foi a primeira pessoa a nos falar da importância do arroz integral para a saúde. Eu o vi envelhecer sempre muito lúcido.
Sou do tempo em que a Santa Missa era rezada em latim. Perdoem-me os entendidos,
mas dava um sono e um cansaço não entender nada além de “AMÉM”.
Até que, um belo dia, para nossa surpresa, chegou o Pe. Thomé e rezou a missa em português. E eu passei a entendê-la.
Para mim, o Vigário, como ele era, respeitosamente chamado, foi uma pessoa correta, ciente de suas responsabilidades e, principalmente, um precursor. |
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