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:: Reportagens Especiais

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     O javali-europeu não pertence à fauna silvestre nativa do Rio Grande do Sul. É uma espécie exótica invasora, nociva aos animais silvestres nativos, à agricultura, à pecuária e ao ambiente. Soltos no campo, eles cruzam com outros porcos, formando espécies híbridas, como o javaporco. Com isso, não há uma estimativa do tamanho do rebanho. A caça do javali é recomendada para controle da espécie onde há prejuízos provocados pela ação do animal.

No rastro dos javalis

:: Forasteiro Indesejado


   Nome científico: Sus scrofla; Peso: os machos podem atingir 180 quilos e as fêmeas, 150 quilos; Comprimento: de 1m20cm a 1m80cm; Altura: de 75 cm a 1,20cm; Expectativa de vida: 15 a 30 anos; Época de acasalamento: dezembro e janeiro; Gestação: média de 120 dias; Filhotes: de quatro a 12 leitões; Dentes: com a dentição completa, são 44. Os caninos em forma de foice são como uma arma, sobretudo no macho.
 

:: A técnica da caça do javali
Reprodução desordenada do animal é combatida com o abate

Reportagem: Jornal Zero Hora, Eduardo Cecconi. Foto: Nauro Júnior/ZH


     O silêncio é interrompido vez que outra pelos galhos secos e folhas mortas pisoteados na passagem dos caçadores. São oito homens ladeados por 12 cães treinados, embrenhados na mata fechada, no interior de Herval. O grupo forma uma equipe de caçadores, autorizados pelo Ibama a abater javalis na zona sul do Estado.

     Considerado praga em solo gaúcho, o animal ataca propriedades rurais à procura de comida. Durante a caçada, os cães General, Barulho, Guará, Guerreiro, Bandido e Saddam - cruzas de galgo, dogo argentino, pitbull, labrador e ovelheiro - saem às pressas e somem entre as árvores, sempre alertas.

     Camuflados, empunhando espingardas e facões, os integrantes do grupo se dispersam rapidamente, da mesma forma que os cães. A comunicação é feita com radiocomunicadores e assovios.

     - Não existe estratégia. Nada é lógico - explica Leonardo de Souza Sedrez, 39 anos, comerciante que aos finais de semana atende ao chamado de agricultores aflitos.


Evidências na natureza

     Sempre que chamados, os caçadores - oriundos de Canguçu e Arroio Grande -, agendam um final de semana para a caçada. Sexta à noite montam o acampamento e preparam a perseguição, que começa antes da companhia do sol.

     - O javali não gosta de calor, procura locais com água e sombra para descansar durante o dia. Na madrugada, invade lavouras e destrói os pés de milho - conta o comerciante Deílson Cardozo, 36 anos.

     Engatinhando por entre galhos retorcidos na mata, sufocado pelo calor do verão, Sedrez aponta os indícios da passagem de um animal. Aqui, uma árvore arranhada na base - onde o javali afia os dentes. Ali, outra árvore com barro seco - provavelmente usada para se coçar após o banho. Acolá, buracos característicos de um animal fuçador. Tudo cercando uma pequena poça d'água à sombra. Pegadas secas dão a entender que o local foi utilizado há cerca de um ou dois dias. Será que ele está por perto?

[Caçada de Javalis] Portal Terra de Mauá | www.arroiogrande.com
Autorizado pelo Ibama, o grupo de caçadores utiliza cães treinados para encontrar os animais

     - É difícil dizer. Passou por aqui, talvez ontem, porque os vestígios estão secos. Esses paradouros servem para o banho e o descanso. Mas javalis são nômades, caminham até 50 quilômetros por dia à procura de comida - afirma Sedrez.

     Apesar das evidências, o animal pode ter levantado acampamento e mudado totalmente de lugar. Enquanto isso, os caçadores derretem subindo e descendo morros de pedras em meio a espinhos e arbustos.

Dia da caça, dia do caçador

     O sábado se aproxima do final, e os caçadores se reagrupam. Vasculharam uma extensa área, penetraram nas lavouras e, de mãos vazias, tomam o rumo do acampamento.

     No jantar, a frustração não se disfarça, e existe até um certo abatimento. Logo contido.

     - Vamos lá. Não dá para desistir. A caçada ainda não terminou - diz Cardozo, em tom premonitório.

     No início do dia seguinte, os pés de milho retorcidos indicam nova visita. Os cães "batem" na mata, expressão utilizada quando os latidos avisam que o animal está cercado. A matilha ataca a mordidas e imobiliza o bicho. Depois, o caçador degola o animal com o facão. Nenhum tiro é disparado. Muito sangue e dificuldades para carregar o javali e cães feridos são o saldo da perseguição. Em algumas propriedades, são caçados mais de cinco animais, quase sempre responsáveis por perdas na lavoura. Desta vez, foi apenas um, mas os caçadores estão à espera de novos chamados.

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:: Arroio-grandenses levam a São Paulo a experiência para o controle do animal

Reportagem: Jornal Zero Hora, Eduardo Cecconi. Foto: Nauro Júnior/ZH

[Deíson Bruno Cardoso, Caçador] Portal Terra de Mauá | www.arroiogrande.com
Deílson Cardozo, que há quatro anos abate javalis, mostra a foto de uma das suas caçadas


     Eles fuçam tudo. Destroem lavouras, atacam criações, provocam o assoreamento dos rios e deixam um rastro de sujeira por onde passam. São javalis, animais silvestres abandonados por criadores ilegais, provocando o desequilíbrio ambiental. Proliferam rapidamente. No Rio Grande do Sul a caça é liberada. Em São Paulo, a presença dos javalis é novidade, e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) deve permitir o combate ao animal para controle.

     Sem experiência no assunto, os paulistas procuraram socorro com nove caçadores e um técnico do Ibama para aprender as técnicas utilizadas na caça do animal. Três integrantes da expedição moram em Arroio Grande, e há quatro anos abatem javalis.

     - Faltou para nós conhecer o clima e o terreno. Lá nos vimos em meio a canaviais e plantações de laranja, com muito calor - conta Deílson Bruno Cardozo, 36 anos, funcionário de aviação agrícola.


     A expedição se instalou em Itápolis, perto de Bauru. Contando também com a presença da Polícia Militar, do Ibama e de caçadores do Paraná e de Santa Catarina, o grupo transitou pelas fazendas da região durante uma semana.Apesar da dificuldade, um javali foi abatido. Motivo de festa e, claro, pretexto para um churrasco.

     - No próximo ano os paulistas devem vir e acompanhar uma caçada - projeta o agricultor Antônio Campelo, 27 anos, estudante de Biologia.

     A dupla atua na companhia do comerciante Leonardo Sedrez de Souza, 39 anos. Para São Paulo, os gaúchos levaram 29 cachorros, protagonistas do ataque aos javalis. Responsáveis pela identificação e prisão dos animais, cruzas de dogo argentino, galgo, pitbull e veadeiro fazem 90% do trabalho. Os caçadores dão o golpe final com uma faca.

     - Abatemos 86 javalis neste ano e não disparamos nenhum tiro - diz.

[Caçadores] Portal Terra de Mauá | www.arroiogrande.com

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:: Gaúchos ensinam a caçar javali em São Paulo

Reportagem: Federação Gaúcha de Caça e Tiro. Foto: Ana Mendes/FGCT


     Nove caçadores gaúchos, dentre eles o conterrâneo Deílson Bruno Cardoso (Boca), estiveram em Itápolis, no interior de São Paulo, para ensinar técnicas de caça de javalis. Eles viajaram a pedido de agricultores e foram acompanhados pelo Ibama. O animal está fazendo estragos em lavouras de pelo menos nove municípios paulistas. "Nesse período do ano, eles estão agrupados perto de córregos, matas ciliares, e provocam muitos danos, fuçando as margens, sujando a água que abastece as pessoas. E especialmente assoreando nascentes", explica André Jean Deberdt, da coordenação geral de Fauna do Ibama. Ele é biólogo especializado em espécies exóticas invasoras do meio ambiente (não nativas) e está acompanhando o trabalho dos caçadores.

     Entre os municípios onde há reclamações de agricultores estão Capão Bonito, Araçatuba, Atibaia e Barretos. "Aqui em Itápolis, muita gente está assustada. Ouvimos relatos de que algumas pessoas já se machucaram - tiveram pernas rasgadas pelas presas do javali quando tentavam caçá-lo", conta André Deberdt. Os javalis têm aparecido nas casas, atraídos por porcos domésticos. Eles se cruzam com a criação e nos filhotes prevalecem as características selvagens. Os filhotes são agressivos, perigosos para a lida", acrescenta André Deberdt.

     A preocupação do Ibama é ambiental. "O javali come ovos de perdizes, tico-ticos, perdigões, come mamíferos de pequeno porte, inclusive domésticos. Disputa alimentos com animais nativos e é nocivo para a reprodução da flora, pois come sementes", relata Scherezino Barbosa Scherer, o técnico do Ibama/RS que acompanha o trabalho. Scherer é responsável pela avaliação de caçadores que se credenciam para a caça no Rio Grande do Sul. Há 22 anos trabalha também como técnico do Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação de Aves Silvestres (Cemave), órgão do Ibama que tem regional no Rio Grande do Sul e sede na Paraíba.

     O abate exige perícia e coragem. O animal é resistente e se defende com violência extraordinária. O javali fareja longe, ouve bem, conhece o território e a escuridão das matas. Para encurralar o bicho, os gaúchos levaram 29 cães, cruzas de várias espécies, principalmente pitbull e dogo argentino.

     "Eu e cinco companheiros já caçamos 80 porcos no Rio Grande do Sul desde agosto", conta o empresário Leonardo Souza, de 39 anos. Morador de Canguçu, ele viajou a São Paulo com seus 15 cães no reboque.

     Foi a primeira viagem longa que fizeram juntos. Partiram de Porto Alegre, perto da meia-noite, para evitar o calor. Percorreram 1.200 quilômetros, a 80 por hora, com paradas para dar ração aos cachorros e passear com eles, para espicharem as pernas.

[Caçada de Javali] Portal Terra de Mauá | www.arroiogrande.com
Turma de Caçadores que foram a São Paulo

     O coordenador de Manejo de Fauna na Natureza, do Ibama em Brasília, Wagner Fisher, comenta que a caça em São Paulo foi permitida a partir da edição da lei de proteção à fauna, recentemente publicada. Em Itápolis foi firmado um Termo de Ajuste de Conduta que envolveu diversas instituições municipais e estaduais, inclusive o Instituto Biológico de São Paulo, que está colhendo amostras porque há desconfiança de que os javalis podem ser portadores de doenças. A metodologia de caça deve ser levada para outros estados.

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:: Créditos desta Reportagem


- Matérias publicadas no Jornal Jornal Zero Hora (www.zh.com.br)
- Ibama (www.ibama.gov.br)
- Federação Gaúcha de Caça e Tiro (www.fgct.com.br)

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